Fotografar no Rio de Janeiro
Quando comecei a fotografar pra valer, houve uma ocasião de uma saída fotográfica de um fórum que eu participava, onde nós resolvemos fotografar cenas cotidianas de alguns bairros da zona sul do Rio (simplesmente street photography). Foi umas das experiências mais enriquecedoras que eu ja tive, pois na ocasião, tive meu primeiro contato com a fotografia em película de 35mm que é minha maior paixão na arte fotográfica, além do contato com alguns fotógrafos com quem aprendi muita coisa boa. Nesta ocasião eu estava com uma minha primeira câmera decente, uma Sony H-1 que me deu muitas alegrias, mas que ja não possuo mais.
O trajeto que planejamos, consistia em irmos do bairro do Catete até a Urca, fotografando tudo que fosse interessante aos nossos olhos. É muito bom rever essas fotos, por que eu vejo os erros técnico que cometia naquela época, mas percebo que minha identidade não mudou muito. O que me era interessante antes, continua sendo, mas percebo que tecnicamente estou melhor. Minha edição melhorou bastante também. Creio que se fizesse esse trabalho novamente hoje, minhas fotos ficaríam bem melhores.
O que me chateia é que hoje não sei se eu faria novamente esse trajeto devido a periculosidade do mesmo. É estranho pensar nisso agora, mas nós passamos por 3 cenas de assalto em apenas 2 horas de caminhada. E é isso que mais me aborrece hoje em dia. Eu gostaria de poder sair e fotografar novamente, mas me falta coragem.
Não posso dizer que nunca mais farei isso, mas certamente, por um bom tempo não poderei fazer uma grande quantidade de fotos de uma só vez como fiz naquele 19 de agosto. Isso devido ao fato de que tirar uma câmera da mochila pode significar assalto ou coisa muito pior, como cansa de ser noticiado nos jornais. Muitas vezes, sinto uma pontadinha de inveja de pessoas que postam nos flickr’s e blogs fotos de suas cidades. Uma inveja saudável, se é que existe isso, mas realmente é chato não termos coragem de fazer isso na nossa cidade-lar. Dessa forma, só me resta fazer minhas fotos urbanas em outras cidades, que na maioria das vezes não possuem metade da beleza do Rio de Janeiro, mas certamente são mais seguras.
Agora, fica a pergunta: até quando seremos privados de fazer o que gostamos por conta da nossa falta de atitude com nossos governantes?
Filhos do Mar
Hoje vou falar de uma outra empreitada com minha amiga e companheira de projetos (Bruna Prado). Essa foi bem interessante, pois foi em uma sexta-feira, véspera de carnaval, eu sem um centavo pra viajar.
Ja estava conformado com o fato de ficar no Rio e curtir um carnaval de tédio, até que ela me ligou e propôs um exercício bem interessante: deveríamos ir ao mercado de peixes de Niterói, e fotografarmos o cotidiano dos vendedores, consumidores e cenas interessantes que víssemos usando apenas uma câmera de filme e uma lente fixa de 50mm. Aceitei o desafio, e na sexta, por volta das 10hs da manhã, lá estávamos.
De cara foi engraçado, por que quebramos as regras na cara de pau: ela não levou a câmera analógica, pois não havia comprado filme. Eu levei uma lente zoom que eu havia comprado fazia pouco tempo e que nunca havia testado com filmes. Sem se importar muito com isso, começamos a “brincadeira”.
Meu maior desafio lá, era vencer minha timidez. Eu não podia simplesmente sair clicando, por que isso poderia desagradar os vendedores e consumidores do local. E esse era um dos meu objetivos: desenvolver o “approach”. No inicio, fiquei meio que “na aba” da Bruna, mas aos poucos fui me soltando, e aí que a experiência começou a valer a pena.
Uma das coisas que mais me tem sido recompensadoras na fotografia, é o envolvimento que a gente acaba criando com o assunto, quando se trata de pessoas. E acaba que isso facilita na hora de conseguir um bom resultado, pois assim quebramos barreiras entre nós e nossos assuntos, o que muitas vezes contribui para a criação de uma atmosfera nada natural. Em poucos minutos, estávamos dentro de um dos boxes do mercado, a convite do próprio vendedor. Foi aí que começamos a ver o comércio com outros olhos.
Percebemos condições de trabalho que não eram satisfatórias aos funcionários. Alguns, achando que éramos repórteres, vieram nos falar dos salários atrasados, da falta de direitos trabalhistas, das grandes jornadas… E até explicar que focinho de porco não é tomada, ouvimos muito além do que gostaríamos. Mas o mais facinante, foi a simplicidade daquele pessoal. A forma como nos trataram bem, mesmo estando insatisfeitos com o trabalho, a simpatia, a alegria.
Foi tão recompensador que eu e Bruna estamos trabalhando em um projeto pra fazer em breve, uma exposição com as fotos que fizemos no local. A coisa ainda está no esqueleto, mas esperamos concluir isso em breve.












